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Projeto Moa: movimentando a Economia Criativa em Belém

Atualizado: 8 de jul.

Por Carol Bremgartner e Gabriel Cativo


O Moa é um projeto de extensão da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará, que busca incentivar cadeias produtivas de jovens com habilidades e competências diversas, por meio de oficinas técnicas e produções culturais. Surgiu em 2018 a partir do edital “Projetos culturais de relevância social”, da Fundação Cultural do Município de Belém – FUMBEL. O projeto é coordenado pelo músico e professor Giancarlo Frabetti, do curso de Economia da UFPA e por Rebecca Braga, cantora e graduanda de Letras.


Prof. Giancarlo Frabetti e a cantora Rebecca Braga durante nossa entrevista.

Em 2019, o projeto ofertou oficinas de produção cultural e produção de áudio, tendo jovens adultos dos bairros do Distrito DAGUA de Belém (Guamá, Jurunas, Condor, Cremação e Terra Firme) como público-alvo inicial. As oficinas resultaram no lançamento de duas coletâneas musicais: “Pelas Fitas” vol. I (2020), que contou com a participação de 15 artistas e “Pelas Fitas” vol. II (2021), com 10 artistas. A equipe foi inicialmente formada pelos coordenadores e por dois bolsistas e em seguida também pelos profissionais de diversas áreas que ministraram as oficinas e auxiliaram nas ações do projeto. Contou com a atuação dos alunos que acabaram se tornando integrantes da equipe, participando da produção das coletâneas e do documentário de mesmo nome. Além dos conhecimentos teóricos dos cursos, houve a parte prática nos estúdios. As oficinas contaram com um total de 96 horas de formação.


As oficinas só puderam ser realizadas por conta do recurso público alcançado pelo edital da Fundação Cultural do Município de Belém - FUMBEL e pela parceria com a Escola de Música da UFPA (EMUFPA), que cedeu o espaço e o laboratório de computadores. “Se a gente não tivesse acesso aos equipamentos, o computador para editar, mixar e masterizar as músicas, talvez não tivesse conseguido viabilizar a segunda coletânea, e talvez nem a primeira”, afirma Rebecca. Os alunos receberam bolsas para ajudar e estimular a permanência nos cursos, além de certificados.


Um dos conceitos nos quais o projeto se baseia é o da Economia Criativa, que é um setor da economia ligado à produção subjetiva de ideias, valores e bens culturais, que trata da capacidade imaterial de criar valor e assim se tornar um setor dinâmico e competitivo que estimula o desenvolvimento cultural. Segundo o professor Giancarlo, Belém possui uma potência natural, com grande capacidade de expansão por meio de investimentos nesse setor.


“O projeto Moa é um tijolinho na construção de um outro mundo possível, que é mais justo, onde as pessoas têm oportunidades, onde o acesso a cultura é um acesso básico, um direito humano”. Rebecca Braga

O outro conceito, o principal, é o de “Faça você mesmo”. O professor explica que a indústria musical se concentra nas grandes empresas, que formam um oligopólio que exclui diversas manifestações culturais. No entanto, o projeto é a criação de uma “indústria própria”, a fim de fazer o circuito cultural ter uma importância histórica e certa independência, com próprio meio de criar, de registrar, divulgar e cativar o público. O Moa estimula os artistas e produtores culturais a iniciarem a autogestão e autoprodução, fazendo-os construir sua própria cena e ter acesso aos meios de produção.


"O “Faça você mesmo” não significa que você tenha que, por uma espécie de religião, recorrer somente a recursos do “chapeuzinho que você passa no ônibus”, não estou dizendo que isso não deva acontecer. Mas o estado e o dinheiro público precisam ser aplicados no desenvolvimento de projetos de economia da cultura”, afirma o professor Giancarlo. “Ainda mais em um país como o nosso, onde você tem uma escassez muito grande para comprar um alimento, quanto mais pra gastar em um ingresso para um show ou em um equipamento, ou seja, onde o circuito cultural não tem muito a capacidade de se retroalimentar pela via do mercado”, completa.


O lançamento, em 2020 e 2021, das coletâneas deu oportunidade para jovens artistas inéditos com linguagens diferentes e próprias, mas também para artistas que estão há muitos anos na estrada como o grupo ‘Os Tamuatás do Tucunduba’, que no projeto pôde gravar e lançar de forma inédita, na primeira coletânea, uma música feita há cerca de 20 anos, e a Mestra Cenira, esposa do mestre Verequete, que no Moa pôde lançar, na segunda coletânea, a primeira e única música de sua vida, pois veio a falecer durante a pandemia de covid-19. Foi realizado também um festival online em 2020, que serviu como uma amostra de shows dos artistas contemplados pelo projeto. Durante o período da pandemia, foi gravado o segundo volume do “Pelas Fitas”, e a co-coordenadora Rebecca disse que a Lei Aldir Blanc foi outro recurso essencial para que isso acontecesse.


Artista Helena Ressoa — Fotografia: Gabriel Tantacoisa

"Essa foi minha grande oportunidade de gravar com a devida qualidade um trabalho meu", foi o que disse a cantora Helena Ressoa ao falar sobre como o projeto Moa atravessou sua arte. Ela esteve entre os 10 artistas independentes selecionados para a coletânea “Pelas Fitas” vol.II.


"A maneira que esse corpo se expõe é o grito das muitas vozes que ouço e sou, pesa a expressão sobre todas as técnicas." Helena Ressoa

Os desafios na carreira dos artistas independentes são inúmeros, desde o processo de composição, produção e gravação até o lançamento e apresentação de seus trabalhos nos shows. Enquanto isso, o apoio e os recursos para a classe artística musical são muito limitados. "Raramente recebemos uma remuneração que pague o processo. A criação não tem preço, mas os ensaios, os músicos, figurinos, maquiagem, transporte e tudo que compõe a performance é um custo", afirma a artista.


O Moa foi capaz de facilitar uma etapa essencial desses trabalhos, que é a gravação das músicas para lançamento nas plataformas digitais e para serem usadas como portfólio pelos artistas. "Gravar um trabalho com o nível de qualidade técnica que esse projeto permitiu, representa a possibilidade de profissionalizar nossa criação, me deu acesso àquilo que eu não poderia realizar. Então, depois da coletânea eu me sinto profissional por ter um material bem produzido para mostrar meu trabalho em editais e locais onde pretendo me apresentar", diz Helena Ressoa. Ela conta que como pessoa nortista, preta e não binária, tem que resistir diariamente a todas as questões projetadas sobre um corpo. “Quando digo resistir quero dizer sobreviver, pois com 32 anos entendi que preciso provar valor constantemente, para que as pessoas me deem oportunidade de trabalhar, mostrar minha arte, e até mesmo existir."



“O Moa é um projeto de apropriação dos meios de produção por uma galera que foi historicamente excluída e que a partir disso pode criar discursos originais e emancipatórios” Giancarlo Frabetti

O professor Giancarlo e Rebecca contam que sonham que o projeto se torne uma política pública que possa atender mais áreas da cidade de Belém, incluindo distritos, ilhas e até municípios próximos. Mas ainda é importante que o Moa continue a receber apoio e recursos para que possa se manter e ampliar o seu alcance. “Nosso objetivo principal agora é sobreviver”, afirma Rebecca. O professor de economia diz que o Moa é o dinheiro público que se transforma na criação de agentes multiplicadores, e complementa: “Fica um recado claro para a Fumbel, que projetos que já têm uma trajetória precisam ser observados para se transformar em políticas públicas permanentes, com lugares, centros onde hajam equipamentos e pessoas trabalhando”. Ou seja, o investimento do governo nesse setor e nas pessoas que trabalham nele são as principais formas de fomentar o circuito de economia criativa na cidade.

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