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Moda, Amazônia e Pandemia: buscando a arte em meio à crise.

Atualizado: 8 de jul.

Por Carol Bremgartner

Revisão Elaide Martins


É possível fazer moda na Amazônia em tempos de pandemia? É sim. Assim como outros profissionais, quem trabalha com moda nas metrópoles paraenses teve que se reinventar, buscando mais preparo e inspiração na própria terra, na beleza e diversidade amazônica.


Em meio às problemáticas da pandemia de Covid-19, os profissionais da área da moda encontraram oportunidades que dificilmente teriam em momentos anteriores. A estilista paraense Ludimila Heringer conta que o acesso a cursos online de outros estados, como Brasília e São Paulo, permitiu ampliar seus conhecimentos durante o período de reclusão. “Eu produzi muito na pandemia, eu estudei muito. Para mim, falando sobre processo criativo, sobre descobrimento, sobre teste, foi muito bom.”


“A estilista Ludimila Heringer no evento Inspiramais, em janeiro de 2022” foto: Instagram (@ludimilaheringer)

As incertezas e o medo que a Covid-19 causou, atingiu a produção de muitos artistas e modificou a forma de trabalhar da área da moda, que lida bastante com o público. Para Ludimila, esse momento intensificou a sua produção em diversos sentidos, “A gente tinha uma certa urgência de fazer, eu pelo menos, a gente não sabia o que iria acontecer”, afirma a estilista. “Agora a primeira vez que eu sai, desde que eclodiu a pandemia, eu fui para a SPFW, e eu achei muito bom, mas ao mesmo tempo eu me estressei muito, muita conversa, muita gente, muita novidade, sabe? Mas esse intervalo que a gente ficou longe, me deixou mais introspectiva, mais focada, mas o medo de conviver socialmente ainda não foi esquecido não.” Com o retorno gradual das atividades presenciais, ela participou de uma mentoria no evento SPFW + Regeneração, que buscava projetos inovadores e sustentáveis, e que levou a marca Ludimila Heringer e de outros artistas amazônicos para o maior evento de moda do país.


“Coleção ParáUru” Fotografia: Junior Cohen e Alan Pantoja

E com o surgimento das novas variantes do vírus Sars-Cov-2, o retorno total das atividades presenciais ainda não é certo, mas a necessidade de produzir faz com que toda oportunidade seja bem vinda. Ludimila pôde estudar e desenvolver várias coleções durante a pandemia, principalmente no ano de 2021. “Esse ano foi muito bom pra mim, foi muito maravilhoso na verdade”. Com isso, se dividindo entre o trabalho e a faculdade de moda, nesse período ela criou a coleção ParáUru, que é feita a partir do tingimento natural de urucum, a coleção Amarelluz inspirada no Círio de Nazaré, que proporcionou a ela a chance de vestir, com sua criação, a cantora Fafá de Belém. E na sua nova coleção Rusty, a estilista utilizou uma técnica não convencional de tingimento a partir da ferrugem de peças descartadas, buscando no ferro velho, entre catracas e rolamentos, o elemento principal dessa coleção.


“Coleção Amarelluz” Fotografia: Yan Coimbra

A marca Ludimila Heringer se inspira nos elementos da natureza amazônica e se utiliza deles de forma sustentável, e já teve a oportunidade de sair em diversas mídias, inclusive na revista Vogue. Quando se trata do mercado de moda paraense, Ludimila acredita que ainda precisa trabalhar mais suas próprias estratégias de venda e público alvo, e afirma que são necessários investimentos e oportunidades oferecidas por parte do governo, empresas e de pessoas que tenham paixão pela área. “A pessoa pode trabalhar em casa, mas ela precisa de uma capacitação; deveriam ter programas de fomento, de incentivo para essas pessoas de forma mais ampla”. A estilista destaca que os profissionais que trabalham na base da cadeia de moda são essenciais, sendo importante valorizar os conhecimentos “ancestrais e seculares” como o da costura, crochê e alfaiataria.


O mercado de moda paraense é rico em talentos, e quem trabalha nele tem expectativas com isso, o stylist e diretor de arte Vinny Araújo diz ser muito positivo em relação ao assunto: “Muitas pessoas me perguntam quando vou embora, e eu digo que não vou (risos). E se todos os talentos forem embora, o que fica? Eu tenho fé! Eu quero movimentar as coisas aqui, eu quero inspirar, incentivar, quero trabalhar na minha terra, eu amo isso aqui”.


“O stylist e diretor de arte Vinny Araújo” foto: Instagram (@vinny_araujo)

Vinny trabalha bastante com direção de moda de produtos de artistas locais e de outros estados, e em novembro de 2021 teve a oportunidade de fazer parte da equipe de figurino de um clipe da cantora Anitta com o DJ Pedro Sampaio, gravado em Belém do Pará. Quando questionado sobre seu processo criativo durante a pandemia de Covid-19, conta que foi inevitável mudá-lo e que o período mexeu com sua sensibilidade no trabalho. “Meu processo não tem mais tanta pressa, não faço mais trabalhos por fazer, por estética ou somente para portfólio, e até os trabalhos comerciais são mais selecionados hoje”.


“Imagens do clipe “Linda” da banda Os Amantes, com produção de figurino de Vinny Araújo” Fotografia: Maira Henriques

Quanto aos obstáculos da pandemia, Vinny diz que a Lei Aldir Blanc ajudou muitos artistas a manterem suas produções durante o período. A Lei foi elaborada em 2020 pelo Congresso Nacional com a finalidade de fornecer auxílio financeiro emergencial ao setor cultural no Brasil, destinando cerca de três bilhões de reais para contribuir com artistas e espaços culturais (fonte: www.gov.br). O stylist conta que foi uma experiência de incertezas e surpresas fazer moda em um período tão problemático - mesmo com o avanço da vacinação. “Eu imaginei os piores cenários: quem ia querer fazer fotos depois de uma pandemia que não só levou vidas como desestruturou a economia mundial... mas foi bem diferente”, conta Vinny. “As pessoas começaram a me contratar para fazer styling pras fotos. Na área publicitária também, o mercado precisava agir e os comerciais começaram a bombar.”


“MC Nic Dias e MC Super Shock com styling de Vinny Araújo” Fotografia: Duda Santana

Vinny acredita que, atualmente, muitos olhares estão sendo voltados para o Pará, que Belém tem virado um “produto” e que é preciso aproveitar comercialmente essa oportunidade. No entanto, ressalta ele, ainda há as dificuldades de acesso a alguns materiais, preços elevados e a falta de mão de obra especializada. Pensando nesses cenários, Vinny pondera: “Quando a gente trabalha fora ou vem uma equipe pra cá, a gente dá o nosso nome, porque tá no nosso cotidiano se esforçar. Eu acho que a gente é bem privilegiado em outros aspectos também, a gente hoje tem acesso à comunicação, a gente consegue entender e interpretar o que tá acontecendo no mundo. Mas eles não conseguem entender o que acontece aqui, não conseguem sentir o que é a Amazônia de forma verdadeira, é muito inspiradora nossa terra.”

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