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Empreendedorismo feminino é crescente, mas ainda requer visibilidade

Atualizado: 8 de jul.

Pelo menos 25% de mulheres na Região Norte abriram o próprio negócio, mas com menos oportunidades de impulsionamentos


Por Thais Peniche e Emilly Melo

Revisão Janaina Amorim


O número de mulheres que decidiram montar o próprio negócio está em constante crescimento. Segundo a pesquisa da Junta Comercial do Estado do Pará (Jucepa), o percentual de Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) aberto por mulheres foi de 44% entre os meses de janeiro a novembro de 2021, contra 42% do ano anterior.


Além das dificuldades do mercado econômico, o empreendedorismo feminino também perpassa pelas questões de gênero. No entanto, para Janayna Galvão, diretora executiva da Associação Junior Achievement Pará, que desenvolve o programa “Mulheres Empreendedoras”, a ocupação desses espaços é uma conquista coletiva para todas as mulheres. “A medida que elas se apropriam de conhecimento, se apoderam de informação, também se colocam como potencializadoras desses espaços. Então, ao trabalhar com isso, faz com que elas se sintam mais à vontade ao verem outras mulheres protagonizarem os seus próprios negócios".

Galvão destaca ainda que cada mulher possui um perfil diferente dentro do programa e que o principal desafio é fazer com que elas consigam se enxergar como protagonistas dos próprios empreendimentos.

“Quando focamos o empreendedorismo na figura da mulher, quebramos um tabu histórico, pois temos o objetivo de fazê-la se enxergar como protagonista da própria história, da sua vivência e valorizar a sua trajetória, com os valores e potencialidades” - Janayna Galvão

Mas, para conseguir desenvolver a própria autonomia, é preciso oportunidade e incentivo, afirma Luciene Gemaque, de 33 anos, assistente social, que, atualmente, coordena um grupo de mulheres ribeirinhas, chamado de “Guardiãs do Cacau”, que produzem chocolates na comunidade de Acará-Açu, no nordeste paraense.


A iniciativa surgiu a partir da ministração de oficinas no território, que tinham o objetivo de resgatar o consumo do cacau e também capacitar as produtoras, que foram orientadas pela Junior Achievement Pará. Assim, o grupo de mulheres percebeu a oportunidade para empreender por meio da fruta. “A oficina despertou um sentimento de pertencimento , e compreendemos a responsabilidade de utilizar o cacau como agente transformador da comunidade”, pontua Luciene.


As Guardiãs do Cacau trabalham com chocolates recheados com frutas regionais e buscam reduzir os impactos do meio ambiente por meio da extração das amêndoas de forma sustentável, e ainda contribuir com emprego e renda para as mulheres da comunidade. A produção é feita por meio do pré-processamento da amêndoa, o que agrega valor e qualidade ao produto. Elas afirmam que o chocolate produzido tem aromas e sabores do cacau fino, sem aditivos.


“Antes, elas não trabalhavam e estavam inseridas no trabalho extrativista, sem perspectiva de aprendizado. Hoje, contribuímos para que elas possam empreender. Toda a comunidade apoia o projeto e está sedenta de novas oportunidades. Estamos construindo o nosso espaço, pois não visamos apenas o dinheiro. É maior que isso, envolve o sentimento de pertencimento, responsabilidade ambiental, descobertas e empoderamento feminino”, destaca Gemaque.


Iniciativas como o programa “Mulheres Empreendedoras” que impulsionam o protagonismo feminino no mercado contribuem com os números de mais mulheres no setor empresarial. O relatório “Empreendedorismo Feminino no Brasil” divulgado neste ano pelo Sebrae destaca que no quarto trimestre de 2021 haviam 10,1 milhões de mulheres no Brasil donas de negócio. A pesquisa aponta que na Região Norte pelo menos 25% das mulheres eram donas do próprio negócio, comparado a homens, que somavam 24%.


A empreendedora Milene Moraes, de 23 anos, dona da doceria virtual “Mimo Delícias”, faz parte desse panorama de crescimento do empreendedorismo feminino no Estado. Ela conta que sempre teve incentivo dos familiares para se inserir no mercado de trabalho e ter independência financeira.


Milene Moraes (arquivo pessoal)

“Na minha casa, meus pais sempre incentivaram minha irmã e eu a sermos mulheres independentes. Eu sempre tive muita certeza desde criança que eu teria meu negócio próprio, eu só não sabia o que seria, isso sempre esteve muito forte dentro de mim”, conta Milene.


O empreendedorismo para a jovem é um sonho alimentado desde a infância. Além de buscar a independência financeira, trabalhar com a confeitaria era o que mais gostava de fazer. “Eu não gostava de pedir nada para ninguém e como sempre gostei de doce, no ensino fundamental juntei o dinheirinho que, às vezes, meu pai tinha como me dar para o lanche, comprei o básico e fiz os primeiros brigadeiros, do meu jeito. Consegui vender tudo”, ressalta.


A empreendedora, que antes tinha um emprego no mercado formal, conta que não encontrou espaço de evolução e independência financeira nesse modelo de trabalho, além de ter que lidar com a exaustão de trabalhar em horários nem tão compensatórios.

“Já trabalhei em um hotel de uma grande rede. Eu trabalhava muito e apesar da empresa ser boa em vários aspectos, mas em outros era bem pesado. Por exemplo, quando estava na madrugada era 6x1. Passar seis dias acordada durante a madrugada é muito tenso. Acho que toda a empresa vai sempre privilegiar o lucro do dono, independentemente de qualquer coisa.”


Mesmo não tendo funcionários em seu negócio, a experiência no mercado de trabalho comum fez Milene pensar a relação entre empregado e funcionário de uma maneira mais compreensível. “Acredito em uma empresa com humanização, seja do cliente ao funcionário. Eu sei como não gosto de ser tratada e fazer isso com alguém, principalmente quando a gente sabe que o outro precisa, não dá”. Sem colocar o lucro acima de tudo, Milene optou por enxergar o cliente de uma maneira mais humana. “A gente sabe como gosta de ser tratado. Eu tento ser muito justa com tudo, seja na minha vida pessoal ou profissional”.


Mesmo motivada pelos seus sonhos, com ideais sólidos e com o apoio dos familiares, Milene, assim como outras brasileiras, esbarra na dificuldade de assistência do mercado empreendedor aos seus negócios.

No Brasil, segundo a pesquisa “Empreendedorismo Feminino”, do Sebrae, divulgada em 2019, as empreendedoras pagam taxas de juros maiores em comparação com empreendedores homens (34,6% ao ano versus 31,1% ), apesar de apresentarem taxas de inadimplência menores (3,7% versus 4,2%).

A empreendedora ainda nos conta que umas das principais dificuldades é a motivação, seguida da falta de apoio aos custos financeiros que fica por conta própria do empreendedor. E com aumento da inflação, ela precisa se desdobrar para garantir o sustento e a permanência do negócio.


“Tudo não só está caro, como também toda semana está aumentando o preço. É sempre muito difícil. Tu tens que estar motivado diariamente e, se tem dinheiro ou não, tudo é por sua conta” ressalta Milene Moraes.


Seja no mercado de trabalho formal ou no empreendedor, o gênero ainda é um fator determinante. O Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental de 2021 mostrou que nos negócios mapeados pela pesquisa, as mulheres representam 67% e os homens 71%. Além disso, elas recebem menos recursos financeiros e outros apoios para evoluir na jornada empreendedora.


Das empresas que foram fundadas por mulheres, ou que têm no quadro de funcionários elas como maioria, somente 22% captaram recursos, contra 27% quando o negócio é liderado por homens. Portanto, não estão tão presentes na fase de escalada das empresas, pois os números mostram que são 25% de mulheres contra 35% de homens.


A pesquisadora em Comunicação e Consumo, Manuela Corral, comenta sobre o olhar romântico que vários setores da sociedade colocam no empreendedorismo. Ela faz uma crítica sobre o mito de que todos que empreendem possuem uma jornada de superação e que sempre será positiva. Além disso, ela destaca que boa parte dos empreendedores no cenário brasileiro não necessariamente queriam ser empreendedores ou se planejaram para isto.


Pesquisadora Manuela Corral (arquivo pessoal)

“Essas pessoas foram empurradas para o empreendedorismo no sentido de começar um negócio próprio ou porque perderam o emprego e precisavam ter uma renda complementar. Então, assim sempre foi uma situação de pressão para levar aquelas pessoas a empreender. Com isso, você tem várias questões em jogo, e nem todas as pessoas têm o perfil de empreendedor, nem todas as pessoas tiveram o mesmo preparo, tiveram o mesmo conhecimento, tem os mesmos acessos. E se a gente coloca isso para uma questão de gênero e pelos marcadores sociais da diferença, a gente vai dialogar com gênero, com raça, com classe social dentre outros, essas questões se problematizam mais ainda”, comenta Manuela.


Outra nuance do empreendedorismo apontado pela pesquisadora é o papel esperado da mulher socialmente. Mulheres, em sua maioria, tendem a acumular jornadas de trabalho e ainda são responsáveis pelos cuidados dos filhos e da casa. Portanto, quando se pensa na atuação das mulheres nesse mercado, elas vão lidar com o patriarcado, com uma mulher que precisa se dividir em diversas rotinas seja do âmbito familiar ou pessoal e não vai ter o mesmo tempo disponível de quem não se divide entre essas questões.


“Ela pode ter ficado ausente por um tempo do mercado porque ela precisou cuidar dos filhos e a atividade doméstica não é vista como uma atividade produtiva, inclusive isso não é visto como uma estratégia do patriarcado. Você não remunera sujeitos pelo trabalho que eles fazem. Então, têm em até várias críticas sobre o que se coloca na conta do amor materno. Ele existe, mas muito do que é usado com a desculpa do amor materno, dessa doação, de você abdicar de coisas, de você se sacrificar, na verdade é uma estrutura que oprime essas mulheres e as excluem de uma série de possibilidades enquanto aos homens fica garantido”, destaca.


E é por este caminho árduo que Janayna e Milene estão buscando espaço, abrindo caminhos para busca de mais investimentos em negócios femininos, jornadas de transformação com o seu negócio e reconhecimento no mercado empreendedor. Bem mais do que ter o seu próprio negócio, mas ter autonomia da sua própria vida.

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