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Os desafios no uso racional de medicamentos

Atualizado: 8 de jul.

Por Eduardo Miranda e João Reis

Revisão Elaide Martins

cesta azul de supermecado com três caixas de medicamento genéricos de pé um em cima do outro. Na respectiva ordem vermelho, azul e azul
Na pandemia, muitos remédios foram disseminados sem comprovação científica | Foto: Dirceu Portugal/Agência O Globo

Inúmeras razões levam as pessoas a tomar medicamentos. Seja para dor de cabeça após um dia estressante, infecções ou tratamento de doenças crônicas, os remédios são variados e exigem cautela devido a reações adversas. Entretanto, a automedicação, ato de consumir medicamentos sem a devida orientação, é um hábito para 77% dos brasileiros, de acordo com uma pesquisa divulgada em 2019 pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), por meio do Instituto Datafolha. Além disso, na pandemia de covid-19, a prescrição médica do chamado “kit-covid”, formado por remédios como a cloroquina e a ivermectina, cuja eficácia contra a covid já foi descartada cientificamente, revela um interesse político na gestão da saúde pública.


Entre as implicações que o uso inadequado de remédios pode trazer estão alergias, dependência, resistência ao medicamento - quando este perde a eficácia em combater inflamações e infecções - além de intoxicações. Entre 2009 e 2018, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) registrou 254.135 casos de intoxicação no Brasil, com um total de 710 óbitos, expondo a gravidade da questão.


Por que as pessoas se automedicam?


Russany Costa, pós-doutora em ciências farmacêuticas e docente do curso de Farmácia da Universidade Federal do Pará, considera, sobre a automedicação, que "um dos principais motivos é a falta de um atendimento mais rápido de serviço médico à população em geral." As filas de espera são a maior insatisfação dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), segundo pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina e Instituto Datafolha em 2018, que constatou ainda que 29% dos entrevistados estavam há seis meses aguardando por atendimento. Portanto, as pessoas, para combater os sintomas que as acometem, “acabam fazendo uso do medicamento porque querem solucionar aquele problema imediato", enfatiza a especialista.


A demora no atendimento tem sido um desafio para Lívia Salgado, estudante de Biologia de 24 anos. Ela possui diagnóstico de bronquite asmática desde criança e iniciou o tratamento na pediatria, passando depois à pneumologia. Entretanto, a partir de 2018 ficou sem atendimento, o que resultou no aumento das crises. "Voltei a ter crises fortes e então procurei o posto de saúde do SUS porque não tenho condições de bancar médicos e remédios.


Lívia conta que na consulta com o clínico geral do posto foi solicitado um exame de espirometria com broncodilatador, já realizado, para confirmar se o seu caso é realmente de bronquite asmática e desde essa única consulta não recebeu mais atendimento. "[Consultei] só aquele dia porque fiquei esperando fazer o exame para voltar nele e o resultado do exame têm sido adiado. (...) Demoraram exatamente 11 meses para liberar o resultado do exame e ligaram para remarcar. Enquanto isso, fico tendo crises, tomando remédio por conta própria e tentando sobreviver", desabafa e complementa.


“E nisso eu sigo usando bombinha passada da validade por não ter condições de pagar quase 200 reais em um refil novo”, conta a jovem. Porém, esses remédios têm sido insuficientes para conter as crises respiratórias, cada vez mais frequentes. “O antialérgico tem efeito curto, já tá fraco para o meu organismo. E estou tendo crises constantemente, coisa que eu não tinha.” A situação de Lívia aponta para as consequências no difícil acesso ao sistema de saúde: “Antes eram duas ou três crises por ano e agora é praticamente uma vez por mês que tenho que usar bombinha”.


A dificuldade no atendimento médico é um problema generalizado no nosso país, o que acarreta em questões como intensificação do número de pessoas internadas e o agravamento do quadro de saúde que poderia ser solucionado em nível primário ou ambulatorial, já que aquela pessoa não conseguiu o acesso ou muitas vezes não buscou atendimento por conta dessa dificuldade e então recorre à automedicação. Além de intensificar um problema que poderia ser solucionado precocemente, causa um custo maior até mesmo ao próprio Estado”, analisa a pesquisadora Russany Costa.

Outro caso que ajuda a entender as razões da automedicação é o de Matheus Lucas, estudante de Direito, de 25 anos. O jovem diz que sempre se automedica com antialérgicos e antiinflamatórios quando têm algum sintoma de doença. Recentemente, teve torcicolo e, para solucionar esse problema, tomou Miosan, por conta própria, após uma rápida busca na Internet. No dia seguinte, apresentou reação adversa ao medicamento com urina escura, dor de barriga e enjoo. Após isso, ele não tomou mais o remédio e parou de sentir os sintomas.


Matheus conta que essa situação lhe serviu de alerta. “No meu caso, [eu me automedicava] porque nunca tive nenhum tipo de reação a medicamentos, não tenho alergia a nada. Então, não costumo ir ao médico para ele me receitar um medicamento que é só eu ir ali e comprar. Mas vivendo e aprendendo. Depois dessa, eu vou procurar um [médico] antes de sair comprando qualquer remédio assim”.


A professora Russany Costa alerta para outros modos de automedicação, como o uso indevido de plantas medicinais. “Precisamos ter cuidado quanto a isso porque a gente não pode achar que a planta, já que é natural, não faz mal. Ela pode fazer mal uma vez que nela há substâncias químicas que se tomadas de forma inadequada e em grande quantidade pode levar a casos de intoxicação também como qualquer outro medicamento”.


Além disso, a automedicação pode assumir fins estéticos. Há muita procura por emagrecedores, mesmo sem a presença de obesidade, e por suplementos para ganho de massa muscular. Essa decisão é, em parte, influenciada por uma cultura midiática que valoriza padrões estéticos como corpo simétrico, forte, esbelto e jovem. Isso pode, entre outras implicações, resultar em distúrbios no sistema digestório. “Assim como os outros medicamentos, usando de forma indiscriminada, a pessoa vai sobrecarregar o fígado e isso pode vir a causar uma lesão hepática e, muitas vezes, levar à morte. A gente tem observado esses informes na mídia e é cada vez mais frequente casos de pessoas que foram a óbito por conta da utilização de chás emagrecedores e outros complexos justamente com esse propósito de querer obter um resultado estético rápido, mas sem que haja o acompanhamento de um profissional adequado”, pondera a pesquisadora.


Kit covid expõe uso político da pandemia


Bolsonaro estimulou o tratamento sem eficácia contra covid. Foto: Carolina Antunes/ Presidência da República.

Um fator que também prejudica o uso racional de medicamentos é a prescrição médica inadequada. Tal quadro se tornou mais evidente com a pandemia de covid-19 e o incentivo, tanto de parte da classe médica como de autoridades governamentais, ao consumo de remédios como ivermectina, cloroquina e a sua derivada hidroxicloroquina e Azitromicina - parte do chamado Kit Covid - que não mostraram eficácia e não possuem comprovação científica de combate à doença.


O fomento ao uso da cloroquina para tratamento da covid ganhou destaque com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que em 19 de março de 2020, em coletiva de imprensa, defendeu publicamente a medicação com base em estudos como do instituto francês IHU-Méditerranée Infection. Essa pesquisa foi criticada por severas falhas metodológicas apontadas por diversos cientistas, a exemplo da exclusão de pacientes que reagiram mal, como também por ter sido conduzida fora dos padrões científicos e sem revisão por pares. Dois dias depois, em 21 de março de 2020, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, aliado político de Trump, anunciou em vídeo na rede social Twitter que o Brasil ia aumentar a produção deste medicamento pelo Laboratório Químico e Farmacêutico do Exército (LQFEx).


O LQFEx foi um dos seis laboratórios que receberam credenciamento para produzir o composto no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Os outros foram Farmanguinhos/Fiocruz, Sanofi-Medley, Cristália, EMS e Apsen. Uma reportagem divulgada pelo jornal O Globo, em junho de 2020, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro atuou diretamente em favor da Apsen e da EMS para importação do insumo do remédio, que é produzido na Índia. Esse favorecimento é justificado pelo apoio que os empresários demonstram ao presidente. Por exemplo, Renato Spallicci, dono da Apsen, é bolsonarista e atuou fortemente na defesa do atual chefe do executivo na campanha eleitoral, além da empresa Sanofi-Medley ter como um dos investidores o ex-presidente norte-americanoDonald Trump.


A partir da produção massiva do composto, Bolsonaro passa a enfatizar ainda mais a cloroquina no “tratamento precoce”, estimulando a automedicação e prescrição médica inadequada. Os impactos desse uso político do medicamento pôde ser sentido no Ministério da Saúde, que teve quatro trocas de ministros - Luiz Henrique Mandetta (abril de 2020), Nelson Teich (maio de 2020), Eduardo Pazuello (março de 2021) e Marcelo Queiroga - destacando-se os dois primeiros, afastados por se oporem à política adotada pelo Executivo na pandemia. Mesmo sem comprovação da eficácia, o remédio foi distribuído no SUS em todo o país até mesmo para pacientes assintomáticos.


Nesse contexto, o uso da Ivermectina também se destacou. Esse composto é um antiparasitário usado no tratamento de humanos e animais e na pandemia ganhou notoriedade rapidamente nas redes sociais pelos defensores do tratamento precoce, mesmo sem a devida comprovação científica.. Dentre os estudos, destaca-se o de pesquisadores australianos da Universidade de Monash, realizado in vitro, ou seja em células, e em uma dosagem tão alta que se aplicada em seres humanos poderia levar a óbito imediatamente.


O uso dessa medicação acabou sendo disseminado também por parte da classe médica devido à boa fama que a ivermectina adquiriu historicamente no combate a parasitas nas criações de gado, à elefantíase e à oncocercose ou cegueira dos rios, o que rendeu o Prêmio Nobel de Medicina aos seus desenvolvedores, concedido em 2015. Inclusive, a eficácia contra a oncocercose estimulou uma campanha da OMS de distribuição gratuita da ivermectina, desde 1988, no primeiro programa massivo de doação de drogas da história, ativo até hoje, com mais de 4 bilhões de doses distribuídas para 49 países da América Latina e da África, resultando em diminuição considerável de casos da cegueira dos rios.


Para a covid, como já demonstraram as pesquisas, a ivermectina não possui eficácia comprovada. Apesar disso e com a propagação feita por autoridades médicas e governamentais, no caso do Presidente Bolsonaro de maneira insistente, o medicamento sofreu um aumento exponencial na procura nesse período pandêmico. Dados do Conselho Federal de Farmácia apontam que, em 2020, as vendas de ivermectina dispararam 557% em comparação a 2019. Para se ter uma ideia, a hidroxicloroquina teve um crescimento de 110% no mesmo período.


Além do explícito incentivo à automedicação, ações do governo evidenciam uma postura política acima da adequada gestão da saúde pública. Um exemplo foi a crise de abastecimento de cilindros de oxigênio nas UTIs e até mesmo o número insuficiente de leitos que aumentou os óbitos por covid em cidades como Manaus, levando, em 14 de janeiro de 2021, quando eclodiu a crise no noticiário, à morte de 20 a 40 pessoas por asfixia. Segundo estimativa do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), esses números até hoje não foram contestados pelas autoridades. Destaca-se também o atraso na campanha de vacinação no Brasil, que iniciou em fevereiro de 2021, em ritmo lento, enquanto que outros países como os EUA deram o ponta pé ainda em 2020. O combate à doença sofreu com a oposição de Bolsonaro e seus aliados à medidas de contenção como o distanciamento social e o uso de máscaras, que se mostraram necessárias para diminuir a proliferação da covid, mas foram rechaçadas pela doutrina bolsonarista.


Falta de oxigênio nos hospitais expôs negligência na gestão da pandemia. Foto: Bruno Kelly/ Agência Reuters

Em meio à falta de rigor científico, ao descaso na contenção da pandemia e à desinformação propagada por figuras públicas, a automedicação se intensificou quando as pessoas buscaram o kit covid a partir de postagens distorcidas em redes sociais e grupos divulgando esses remédios.

“O grande problema [da internet] é quando se vincula informações falsas, as famosas fake news, o que é algo que precisa ser combatido, pois ainda é uma grave questão no Brasil”, considera Russany Costa. A pesquisadora ressalta os impactos negativos do kit covid. “Eles acabam intensificando os sintomas e também ocasionando situações adversas e efeitos colaterais principalmente por conta dos efeitos tóxicos que eles causam, como por exemplo a hidroxicloroquina", friza.


Os efeitos colaterais desses compostos foram sentidos por Raphael Batista, designer, de 32 anos, morador de Manaus. Ele relata que em 2020 passou a maior parte do ano praticando isolamento social, mas com a flexibilização das medidas preventivas e a volta às aulas na rede pública de ensino, em setembro de 2020 apresentou sintomas de covid, alegando que contraiu a partir da sua mãe, que é professora. "Nos encaminhamos à UPA 24 horas e fomos diagnosticados com covid. Foi passado na receita a ivermectina e a hidroxicloroquina, voltamos para casa e iniciamos o tratamento." No entanto, os remédios tampouco combateram a doença como causaram reação adversa. "Passei dois dias acometido por uma forte intoxicação medicamentosa. Tive vômito e diarréia sem parar, a cabeça e o corpo, que já doíam pela covid, pioraram muito mais. Eu não conseguia comer ou dormir." detalha o designer. "Após dois dias tomando Ivermectina e cloroquina, felizmente, suspendi a medicação receitada e comecei por conta própria um tratamento paliativo para gripe", conclui Raphael.


A propagação da hidroxicloroquina na pandemia acabou também afetando o tratamento de outras doenças que realmente são tratadas com esse composto. Isso foi observado por Melissa Gonçalves, funcionária pública. "Ano passado, 2021, eu fui diagnosticada com líquen plano, uma doença autoimune. O tratamento é com hidroxicloroquina. Eu fiquei bem resiliente porque ficou marcado como remédio de bolsonarista. O preço também me incomodou porque eu soube que antes da pandemia era um remédio muito barato e sem necessidade de receita. Com toda a busca pelo remédio, passou a ser caro e a ANVISA determinou que seria necessária receita especial para comprá-lo, o que me faria ter mais retornos com a médica". Apesar disso, o tratamento foi realizado com sucesso e, após sete meses, Melissa parou de manifestar a doença.


A importância do farmacêutico e da conscientização


Alunos do curso de Farmácia da UFPA abordam importância do uso racional de medicamentos. Foto: João Reis/Amazônia Urbana

Para frear a automedicação, a professora Russany Costa aponta para a importância do profissional farmacêutico na orientação do uso de remédios. "O farmacêutico é o profissional de saúde mais próximo e acessível da população. Então, ele pode dar informações sobre qual o tipo de medicamento mais adequado para cada caso. Ou até mesmo indicar, se necessário, um serviço especializado de atendimento médico para o público". No momento em que nossa equipe conversou com a docente, ela estava com a sua turma do curso de Farmácia da UFPA realizando um ato em alusão ao Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, em 5 de maio.


"O uso racional de medicamentos envolve a conscientização. Por exemplo, se você tomar um medicamento em uma alta dosagem, não tiver um controle ou sem acompanhamento, você pode ter uma intoxicação ou pode não ter o efeito necessário do remédio. É importante compreender o funcionamento dos medicamentos e como podem ajudar na sua vida sem intervir [negativamente] na sua saúde. O profissional farmacêutico atua nessa área orientando os pacientes a entenderem como administrar o medicamento e como vai descartá-lo, já que não se pode simplesmente jogar no lixo, tem um local próprio chamado descontômetro." analisa Yasmin Salgado, acadêmica de farmácia do 5° semestre.

Russany Costa reforça que "essas ações e campanhas para conscientizar cada vez mais a população em geral, desde jovens até os idosos, é fundamental para que todos saibam da importância de se utilizar medicamentos de forma correta e por orientação de um profissional".



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