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Como o voto dos jovens pode influenciar a eleição deste ano

Atualizado: 8 de jul.

Em cenário de polarização política, jovens de 16 e 17 anos podem ser decisivos. Redes sociais buscam estimular o engajamento deste grupo


Por Eduardo Miranda

Produção Bianca Galhardo, Julia Mota e Wander Lima

Revisão Ana Prado


Foto: Reprodução

Eleições gerais no Brasil em 2022. O que tem sido destaque até o momento são as campanhas de mobilização pelo voto de jovens de 16 e 17 anos. Pelas redes sociais digitais, muitos artistas, influencers e outros grupos têm buscado cada dia mais convencer esse eleitorado a estar apto em outubro. Em 21 de abril, o TSE apontou que no mês de março houve um aumento de 45% no número de jovens com título de eleitor em comparação a fevereiro. Essa faixa etária têm voto facultativo, mas pode ser decisiva no resultado final das eleições deste ano.


Murilo Junqueira, doutor em ciência política e professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará explica que o Brasil tem sido impactado pelo processo de polarização política, principalmente por conta da maior disseminação de informações sobre o tema devido às redes sociais. Segundo o professor, “uma característica do eleitor politizado é que ele não muda de opinião facilmente. O eleitor engajado de esquerda, por exemplo, já tá fechado com o pessoal da esquerda, nada do que você diga vai fazer ele mudar. E o de direita também, é muito difícil você fazer ele votar num candidato de outro viés”.


O jovem, então, pode ser um ponto de virada nessa polarização. “Eu não vou conseguir votos a mais do resto do eleitorado que está pouco aberto à mudança de opinião, mas se eu pegar os jovens e convencer eles a tirar o título de eleitor, eu vou ganhar uns votos”, analisa Junqueira. E por conta da juventude, historicamente, manifestar tendência a pautas mais progressistas, principalmente pelo papel do movimento estudantil, a esquerda parece levar vantagem na conquista desse eleitorado. "Os partidos estão fazendo pesquisas apontando que os eleitores mais jovens tendem a votar mais nos candidatos progressistas, principalmente no Lula e na esquerda. Então, se a esquerda convencer o jovem a votar, tirar o título de eleitor e votar, ela vai tender a ter mais votos”, reforça o professor.


REDES SOCIAIS INFLUENCIAM MAIS DO QUE NUNCA


Difícil haver hoje quem não possua uma conta no WhatsApp, Facebook, Instagram ou outras redes sociais e/ou aplicativos de mensagens. É muito comum vermos as pessoas com smartphone checando o feed ou a caixa de mensagens, seja em casa, no transporte ou no trabalho. Em relação aos smartphones, em uma pesquisa publicada em dezembro de 2021, a Fundação Getúlio Vargas estima que 242 milhões de aparelhos estejam em uso no Brasil, ou seja, mais de uma unidade por habitante. Nesse sentido, por conta dos dispositivos móveis, as redes sociais e a internet passam a ter uma influência cada vez maior na sociedade.


Sobre o protagonismo das redes sociais digitais, Junqueira ressalta que “isso tem impactos positivos e negativos: um impacto positivo é uma maior disseminação de informações políticas, um processo de politização no sentido de que as pessoas discutem mais política, entendem muito mais o papel do estado e das leis”. Entretanto, isso não garante que os debates sejam aprofundados, ao contrário, muitos acabam sufocados na superficialidade: nas redes sociais você tem uma comunicação muito baseada em memes, comunicações que são muito curtas, em geral muito simples e extremamente apelativas do ponto de vista emocional”, pontua.


Segundo o professor, esse debate superficial resulta em uma pobreza na apresentação de propostas, destacando que a mídia tradicional, apesar de seus problemas, consegue gerar uma discussão mais substantiva e aprofundada. Já nas redes sociais, “ao invés de eu falar, por exemplo, do programa de educação, e vim pessoas concordando ou criticando, eu escolho não falar nada, já que assim ninguém me critica”, contextualiza o pesquisador.


Para superar esse quadro de superficialidade no debate político, Junqueira sugere a participação dos jovens na política, não somente pelo voto, mas também por meio de estímulos desde o ambiente escolar. “A participação tem que ser incentivada, inclusive nas escolas, com a formação de grêmios e associações estudantis, já que isso pode dar uma noção de organização democrática, de autogestão. Para os jovens, isso pode ser bem proveitoso”.


MOBILIZAÇÕES VISAM RECUPERAR INTERESSE DOS JOVENS NAS ELEIÇÕES


Em 2020, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou que a adesão de jovens de 16 a 18 anos à eleição caiu 55 % em comparação com o pleito de 2016. A pandemia foi, nesse caso, o fator que ampliou essa baixa adesão. Murilo Junqueira faz uma analogia dizendo que o interesse dos jovens tem variado como as ondas do mar. Mesmo que esse grupo seja um dos mais engajados historicamente, isso depende de condições propícias. “O brasileiro, em geral, sempre foi afastado da política. Mas o jovem sempre foi um dos grupos mais engajados. Porém, as elites sempre viram de forma muito reprovada a participação popular. Vamos pensar na República Velha, no Estado Novo, o regime de 64. As elites sempre desincentivaram e isso acabou entrando na cultura do brasileiro médio, que fala ‘não vou mexer com isso porque pode ser perigoso, isso pode me prejudicar”.

Estudantes na passeata dos cem mil em 26 de junho de 1968 no Rio de Janeiro. Foto: Evandro Teixeira.

A força da juventude é expressa no processo histórico com o vigor do movimento estudantil em eventos como a Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, em oposição ao regime militar, e o movimento das Diretas Já no processo de redemocratização. “Por que os jovens são sempre os primeiros a ir para a rua? Por condições propícias, já que eles estão juntos no mesmo espaço e têm redes de conexão muito densas. Os estudantes são muito amigos uns dos outros. Então, para eles fazerem uma coisa em comum, é muito mais fácil”, diz o professor. Porém, nos últimos anos, a pandemia de Covid-19 retirou, em parte, condições propícias à participação juvenil.


Neste ano de eleições, entretanto, tem se destacado as campanhas de mobilização pelas redes sociais. Personalidades brasileiras como Anitta, Zeca Pagodinho, Luísa Sonza, além dos atores internacionais Mark Ruffalo e Leonardo DiCaprio, já se pronunciaram sobre a data limite elegível. Assim, acabou-se criando um movimento informal nas redes sociais, onde houve inúmeros virais de posts no Instagram e Twitter que procuram chamar a atenção do público alvo, que são jovens a partir de 16 anos completos em 2022.


Para além de simples postagens esporádicas, surgem grupos bem organizados nessa missão de estimular a adesão às eleições. É o caso do Army Help The Planet, descrito como um movimento social que foi fundado pela união de fãs do grupo musical sul-coreano BTS. Entre suas ações recentes, estão projeções com frases de efeito no intuito de aumentar a adesão, feitas em seis cidades do País - Belém, Brasília, Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

Projeção do movimento Army Help The Planet em Belém no dia 08 de abril de 2022. Foto: divulgação.

Também vem se destacando a Agência Quid, especializada em mobilizações políticas, que criou a campanha digital “Olha o Barulhinho”. Uma das marcas desse projeto são as parcerias firmadas com páginas de memes e influenciadores da área do humor que têm como público alvo a geração Z - nascidos entre o fim da década de 1990 e 2010.


Em entrevista concedida ao portal o JOTA, Betina Faroe, coordenadora de projetos na Agência Quid, fala sobre como surgiu essa ideia: “Chegamos nesse conceito a partir de pesquisas com jovens da faixa etária alvo, para entender os motivos para não votar. Os perfis principais são de jovens com baixa autoestima política, que receiam uma tomada de decisão e não se sentem prontos; aqueles que decidiram não tirar título para não assumir um lado na polarização; e os mais céticos em relação à política”. A página da campanha conta com informações sobre como tirar o título de eleitor e o redirecionamento ao site do TSE, no qual é realizada a emissão do documento.


Esses grupos de mobilização evidenciam a necessidade de uma comunicação horizontalizada, mais acessível para que os jovens se sintam estimulados a participar desse processo. “A culpa não pode ser força propulsora para o voto jovem. Precisamos superar esse entendimento da política como algo hostil. Só é possível enfrentar a onda antidemocrática não como um vestibular, mas como uma celebração da democracia”, destaca também em entrevista ao Portal o JOTA, Heloísa Branco, supervisora da Organização Girl Up, que vem atuando nas eleições com a iniciativa “Seu Voto Importa”.


A HORA É AGORA


Evelyn Moura, de 17 anos, estudante de jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará, já tirou o seu título de eleitor e está apta ao voto este ano. Ela considera que mesmo não sendo obrigatória a votação para a sua faixa etária, diz que os outros jovens “deveriam participar porque, querendo ou não, eles serão afetados pela eleição, quem for eleito vai impactar de maneira direta na vida da pessoa, sendo ela maior de idade ou não”. Sobre as ações de grupos como o dos fãs de BTS e dos outros movimentos citados anteriormente, a estudante avalia como positivas: "É uma ação muito interessante, incentiva as pessoas a votarem e se conscientizarem sobre o assunto de uma forma mais fácil”. Além disso, Evelyn reforça a importância do processo eleitoral: “A eleição vai definir os próximos quatro anos do país, no âmbito educacional, econômico, da saúde, entre outros. Além de mostrar como as pessoas estão pensando, explicita como as pessoas querem que o Brasil seja representado para o restante do mundo”.


Já segundo a estudante do ensino médio, Isabela Merlini, de 17 anos, é preciso desmistificar a ideia de que os jovens são imaturos para se envolverem nas eleições: "a participação dos jovens nas eleições mostra que é possível a sua inclusão de maneira madura na política", enfatiza. A jovem relata que ainda não tirou seu título por conta “da grande quantidade de informações no site" e também porque obteve problemas com o seu aparelho celular, mas afirmou que vai tirar o seu título antes do prazo final, em 4 de maio. Isabela conclui o seu relato dizendo que "a eleição é importante, pois é assim que você irá decidir o futuro do seu país, de maneira boa ou ruim", levantando a questão da necessidade do voto consciente.


Se você ou alguém que você conhece ainda não tirou o título de eleitor, a equipe do Amazônia Urbana preparou um passo a passo bem simples para ajudar nessa tarefa. Confira!

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