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Baía do Guajará e Rio Guamá: a solução para melhoria da mobilidade urbana em Belém

Atualizado: 8 de jul.

Por Adrielly Araújo, Eduardo Miranda e Heloiá Carneiro

Mapa de Belém do Pará. Fonte: IBGE

PARTE 1: “DO JEITO QUE TÁ, NÃO DÁ PRA FICAR”


Lentidão, superlotação, insegurança e má-estrutura. Essas são palavras que marcam o cenário da mobilidade urbana em Belém, cidade cuja demanda por transporte público é de cerca de 1 milhão de passageiros por dia, segundo dados da Secretaria Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (SEMOB).


Não é novidade que a região metropolitana de Belém sofre com graves problemas de transporte público. As péssimas condições dos ônibus, o aumento da tarifa e a insatisfação da população representam parte relevante das discussões locais acerca do transporte coletivo. As ações tomadas pelos órgãos competentes nos últimos anos, como o BRT - sistema de ônibus rápido -, parecem longe de resolver o impasse da locomoção terrestre. Porém, um olhar para os rios que cercam essa cidade sugere que soluções podem ser almejadas ali no horizonte.


A capital do nosso estado, Belém do Pará, é uma região entrecortada por água. A Baía do Guajará e o Rio Guamá representam uma fonte quase infinita de possibilidades, tanto em beleza, quanto em alternativa sustentável de mobilidade urbana por meio da aplicação de transporte coletivo fluvial movido a energia solar.


Esse tipo de locomoção, embora não elétrico, já foi testado no ano passado, entrou na pauta do dia com o projeto da prefeitura de Belém, em conjunto com o Governo do Pará, que já contou inclusive com a realização de viagem experimental pelo prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL) em agosto do ano passado. Mas não houve avanço.


BARCO DE TESTE ICOARACI-UFPA

“A prefeitura há um tempo tentou implementar uma embarcação catamarã para fazer essa rota que trouxesse de Icoaraci até o Ver-o-peso, só que foi uma tentativa sem estudo prévio", explica Emannuel Loureiro, professor da Faculdade de Engenharia Naval da Universidade Federal do Pará, que apresentou um dos poucos estudos recentes sobre a viabilidade desse tipo de locomoção no seu artigo "Análise de viabilidade à implementação de embarcações fotovoltaicas no transporte urbano de passageiros na Amazônia".


Segundo Emannuel, o fator decisivo para o fracasso das embarcações urbanas nas duas tentativas feitas tanto em 1999, quanto em 2009, foi o alto custo da passagem. “Para quem se movimenta todo dia, ida e volta, pagar 10 reais na passagem com o preço do ônibus que na época não era nem três reais, não era competitivo”, constata.


Além disso, a falta de integração do projeto também prejudicou a acessibilidade, afastando os usuários por conta da distância do terminal, ausência de linhas de ônibus na proximidade e de paradas intermediárias das embarcações. "A embarcação deixava as pessoas no Ver-o-peso porque tem muito ônibus, mas o local onde as pessoas embarcavam, em Icoaraci, não era abastecido por uma rede urbana não tinha uma complementação. As pessoas tinham que ir andando para lá. Não era um ponto estratégico”.


Ônibus lotado faz parte da rotina da maioria da população. (Fonte: Domingos Peixoto/ Agência O Globo)

PARTE 2: A VIABILIDADE DA EMBARCAÇÃO ELÉTRICA ICOARACI-UFPA


As embarcações movidas a energia elétrica já funcionam em outros locais. Em lugares como Valdivia no Chile, que é a primeira cidade do país a ingressar na iniciativa de “Cidades Emergentes e Sustentáveis”, dentro do programa que prevê, na execução do plano de desenvolvimento de sustentabilidade urbana, os principais objetivos: sustentabilidade ambiental e de mudanças climáticas; sustentabilidade urbana; sustentabilidade fiscal e governabilidade.


Inauguradas em 2013, as três embarcações movidas a energia solar, têm capacidade total de 18 pessoas, com espaços projetados para comportar desde idosos, cadeirantes, até crianças. Este modelo de transporte fluvial foi pensado para conectar bairros perimetrais com o centro de Valdivia. A escolha dos trajetos foi pensada para descongestionar o trânsito no centro da cidade e proporcionar uma viagem mais rápida e econômica. Já temos exemplos práticos para desenvolver e implementar essa tecnologia, condições geológicas e hidrográficas favoráveis e a demanda de cidadãos interessados! Então o que falta?


De acordo com dados do artigo Análise de viabilidade à implementação de embarcações fotovoltaicas no transporte urbano de passageiros na Amazônia, no Brasil, 72,3% do transporte é realizado à base de fontes energéticas derivadas de combustíveis fósseis como óleo diesel e gasolina, dos quais 96% dessa parcela é composta pelo transporte rodoviário. Essa utilização majoritária contribui para o aumento de gases do efeito estufa na atmosfera e caracteriza um dos grandes problemas enfrentados pelos países do globo no século XXI.


O professor Emannuel Loureiro conta que muitos já observaram a grande demanda para o serviço de embarcação fotovoltaica e que os órgãos responsáveis perceberam o atraso no projeto, por isso, “a prioridade inicial é colocar uma embarcação à combustão, porque tem várias empresas que já vão atender e desafogar a população carente”. O pesquisador afirma que a intenção é fomentar o estudo e a implementação das embarcações elétricas posteriormente.


Segundo ele, o projeto não sairia mais caro, a médio prazo, para os cofres públicos. O artigo anteriormente citado demonstra que, embora o custo de aquisição seja maior (justamente por causa do pouco investimento brasileiro em veículos fotovoltaicos), a embarcação elétrica tem um custo operacional muito menor do que uma embarcação à combustão.


“Enquanto se gasta 1 milhão com uma embarcação comum, se gastaria entre 2 e 2,5 milhão com uma embarcação elétrica. Mas a médio prazo, essa conta se inverte totalmente e compensa muito ter uma embarcação elétrica com um custo operacional menor do que uma embarcação à combustão” Emannuel Loureiro

Embora não haja tantos projetos especializados no tema no nosso país, a Universidade Federal do Pará, contemplada pelo edital de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), já desenvolve a iniciativa SIMA que visa criar um sistema integrado de inteligência de gestão de energia.


“Dentro desse grande projeto, inclui-se vários subprojetos além de outros softwares, hardwares e patentes, o carro chefe era o barco elétrico, a nossa proposta principal quando fomos contemplados pelo edital”, conta Emannuel Loureiro. Foi desenvolvido um projeto de embarcação elétrica para fazer o transporte de alunos na orla da universidade. É um projeto piloto, com a primeira embarcação elétrica do norte para transporte de passageiros, que vai transportar os alunos desde o Laboratório da Naval até o Restaurante Universitário do campus básico. A mão de obra intelectual e estrutural desenvolvidas aqui mesmo, na UFPA.


Apesar das vantagens do barco elétrico, a prefeitura deu prioridade ao projeto apresentado pela empresa Tapajós Expresso, pertencente ao grupo Ouro e Prata. Essa empresa sugeriu à prefeitura a construção de uma estação hidroviária à margem da Praça do Pescador no Ver-o-peso. Como embarcação, a Tapajós Expresso utilizará a catamarã, veículo bimotor movido à combustível. Essa prioridade dada ao barco à combustão sugere uma pressa da prefeitura em entregar algum projeto de mobilidade à população, mesmo que soe com viés de mostrar serviço às vésperas das eleições.


Por outro lado, de acordo com o professor Emannuel Loureiro, um dos problemas com a implementação do projeto é a logística, com a pouca quantidade de estudos e a ausência de fabricantes. “As embarcações elétricas representam um cenário pouco estudado no nosso país. Se eles pedirem para uma empresa apresentar um projeto desse nível, na rota Icoaraci-UFPA, seria muito difícil. Tem poucos projetos, nenhum fabricante”, afirma o pesquisador.


Embarcação Solar III em Valdivia, Chile. Fonte: Marítimo portuario e Universidad Austral de Chile, respectivamente

PARTE 3: COMO AS PESSOAS AVALIAM


Bianca Galhardo, 22 anos, estudante de jornalismo da Universidade Federal do Pará, é moradora de Icoaraci e depende do transporte público para se locomover diariamente. A estudante se desloca cerca de 25 quilômetros, desde a sua casa até a universidade e depois ao estágio. “Se funcionar como deve, essa travessia fluvial facilitaria muito os meus dias. Ia ser muito bom principalmente pelo contexto do transporte público por terra em Belém não ser dos melhores, visto a questão do engarrafamento e da cidade ser muito movimentada no sentido de mobilidade”, desabafa Bianca.


As embarcações fotovoltaicas poderiam ajudar a estudante em seu trajeto diário. Porém, o especialista Emannuel Loureiro ressalta que esse veículo não alcança velocidades tão altas se comparado ao que pode ser alcançado com os ônibus, por conta do gasto de energia que o barco fotovoltaico demanda, atingindo no máximo 15 nós, isto é, 28 km/h. Apesar disso, Emannuel não enxerga esse ponto como desvantagem considerável: “No rio não tem engarrafamento, é uma linha reta, não tem sinal. Ela [embarcação] pode andar muito mais devagar que, mesmo assim, vai ser muito mais rápida que um ônibus. A gente conseguiu comparar que a embarcação nesse quesito era muito atraente.”


No que se refere ao preço da tarifa, o professor indica que seria um pouco maior do que a atual tarifa urbana, entretanto com vantagens bastante competitivas. “A tarifa sem subsídio, sairia em torno de 4 a 5 reais, um pouco mais caro do que hoje está o ônibus, mas com o conforto, segurança e agilidade”.


Passageiros esperam por mudanças. (Foto: Eduardo Miranda)

Os gastos diários também são uma questão para quem precisa se deslocar. Com o aumento da passagem dos coletivos na cidade, esses problemas se intensificam, ainda mais considerando que a maior parte da população que utiliza desse transporte, é de baixa renda.


Mesmo para os alunos que pagam meia passagem, algumas pessoas ainda não poderiam arcar com os custos de pagar mais caro por um transporte de qualquer tipo, incluindo o hidroviário. Esse é o caso de Lorena de Cássia, estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Pará (UFPA). ”Sinceramente, não estaria disposta a pagar mais caro por conta que pesa no bolso. Pago 5 reais por dia, para ir e voltar, ou seja, o gasto seria maior” explica a jovem, que escolheria se locomover pelo meio mais barato disponível.


Lorena, que está grávida, conta que as dificuldades nos coletivos vêm aumentando. Ela relata que “a minha maior dificuldade no uso do ônibus é pegar ele extremamente lotado, porque como estou grávida, é ruim para passar dentro do ônibus”. O tempo no trânsito também não colabora. “Eu acharia ótimo a embarcação porque é quase 1 hora e meia de ônibus, principalmente o trânsito da Augusto Montenegro que não ajuda”, desabafa a estudante.


Cabe, então, às instâncias municipais e estaduais o incentivo à produção científica nas universidades e parcerias com o setor privado na busca de viabilizar o uso de energias sustentáveis como a solar no intuito de gerar condições propícias ao funcionamento das embarcações urbanas, dadas as vantagens que estas possuem. A fim de uma acessibilidade no custo da tarifa à população, a concessão de subsídio pelos órgãos competentes poderia ser um alento na garantia de uma mobilidade digna a todos.


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