• Amazônia Urbana

As experiências marcantes de quem vive e viveu o Re-Pa

Atualizado: 8 de jul.

Pessoas que, de uma forma ou de outra, vivenciam a história do clássico mais jogado do Brasil contam ao Amazônia Urbana as diferentes facetas do Re-Pa. Não faltam relatos de rivalidade, emoção e muita paixão, seja dentro ou fora de campo.


Por Evely Costa, Rui Guilherme Filho e João Reis

Revisão Elaide Martins

Fotos: Evely Costa


O Clássico entre Remo e Paysandu, como foi mostrado na reportagem anterior, movimenta as grandes torcidas em favor dos times. Nesta reportagem, abordaremos a vivência em relatos de pessoas que participaram direta e indiretamente nas atuações dos jogos, na tentativa de que essa antiga rivalidade permaneça viva, trazendo engajamento para um assunto que é referência dentro do esporte paraense, que são os jogos clássicos entre Remo e Paysandu. Foram entrevistados o ex-técnico e ex-jogador do Clube do Remo, Agnaldo de Jesus, o jornalista do portal Roma News, Júnior Cunha, e o editor de esportes do jornal O Liberal, Pedro Cruz.


Os jornalistas são parte essencial para a cobertura desse clássico. Suas experiências são de muito tempo e, para muitos deles, indescritíveis: “Cobrir um clássico Re-Pa é sensacional. Uma das maiores experiências profissionais da minha carreira enquanto jornalista. Eu sempre tive essa vontade de estar no estádio trabalhando em dia de clássico. O meu primeiro Re-Pa foi em 2017 pela quarta rodada do Campeonato Paraense. Na época, eu estava como repórter da TV Cultura. Por si só aquele jogo já era especial pra mim, mas ficou muito melhor com o gol da vitória saindo quase que no último lance do jogo. Remo venceu por 2 a 1”, lembra, com muito saudosismo, Júnior Cunha, que atua no Roma News há dois anos e meio.


Pedro Cruz, que no mês de maio completou 1 ano como coordenador do núcleo de esporte de O Liberal - cargo que, no atual organograma da Redação Integrada do jornal, incorporou algumas funções a mais do que a tradicional figura do “editor”, também contou sua primeira experiência no clássico: “Antes, fui nove anos repórter do GE Pará, período em que pude trabalhar na cobertura da maioria dos Re-Pa na minha carreira, fui também, estagiário no caderno Bola, do jornal Diário do Pará, pelo qual cobri meu primeiro "Clássico Rei da Amazônia", em 29 de janeiro de 2012. Sobre a quantidade de Re-Pa, só posso dar um número estimado. Ao longo desses 11 anos de carreira, acredito ter participado da cobertura de quase todos os encontros entre Remo e Paysandu, com algumas possíveis exceções. Dessa forma, acredito que essa contagem pode estar entre 49 e 54 jogos”, apontou Cruz.


Para Agnaldo de Jesus, que viveu o Re-Pa, tanto como jogador quanto técnico, é uma maravilha falar dessa experiência:

"(Em matéria de) Re-Pa, posso falar com propriedade. Dentro de campo é um jogo à parte. É uma competição diferente. Quando se fala em Remo e Paysandu, para o Estado, pela rivalidade, automaticamente a pressão aumenta também, a cobrança do torcedor, a cobrança dos dirigentes, cabe a nós, jogadores, dentro de campo, assimilar, filtrar e poder dar o melhor. Agora nós não podemos passar do limite, né? Mas é tudo diferente, é uma emoção que aflora, o que eu costumava dizer quando o atleta vai jogar: o torcedor que vai a campo deixa de comer, deixa de tomar o açaí pra comprar o seu ingresso, nós temos que honrar a presença do torcedor. E quando nós estamos na arquibancada, o nervosismo é maior, acelera o batimento cardíaco e nós ficamos assim meio nervosos [...]. E hoje, fora do campo, nós temos apenas que torcer e vibrar, gritar e procurar incentivar o nosso clube do coração, que é o Clube do Remo, né? Mas é uma emoção muito da pele, que mexe com todos aqueles torcedores apaixonados pelo futebol."

Arquivo pessoal - Agnaldo de Jesus

Quanto à questão da torcida, os entrevistados são enfáticos sobre a participação dela no cenário de Re-Pa, seja dentro ou fora dos estádios. Agnaldo conhece muito bem essa força, pois tem experiências, não apenas com a torcida azulina, mas também com a bicolor. Além de não esconder a admiração que tem pelas torcidas paraenses, o ex-técnico e ex-jogador destaca a relação carinhosa que mantém com os torcedores até hoje, mesmo fora de campo: “O tratamento que o torcedor tem por mim, aonde eu vou, é muito respeitoso, tanto pelo Remo, que é o meu clube de coração, isso aí já é admitido pela minha pessoa aonde eu vou, e tanto pelo torcedor do Paysandu porque eu sempre respeitei a instituição Paysandu Sport Club. Às vezes eu saio com a família, com a esposa, e eu fico conversando com as pessoas, porque às vezes elas me tomam dela para que eu possa dar atenção, sou um cara muito "amigueiro", muito prestativo com as pessoas, e o povo paraense, como eu digo, é um povo acolhedor, é um povo humano, é um povo solidário e de um coração do tamanho do mundo, sabe?”, ressalta Agnaldo.


"Eu moro aqui na Pedreira, e eu encontrei um pessoal da Terror (Bicolor, torcida organizada do Paysandu), eu passei de moto, aí gritaram: "Boneco, ô boneco", aí eu voltei, e aí os caras me abraçaram e me falaram assim: ‘Você é um cara que nós respeitamos’. É aquilo que eu te falei lá atrás, eu sempre respeitei a instituição Paysandu Sport Club. É lógico, num jogo não, quando eu jogava eles me xingavam, me ofendiam, que fazia parte, eles são torcedores, têm de xingar [...], ofender da maneira que eles acharem. Mas fora das quatro linhas, na rua, eu sou uma pessoa normal, uma pessoa comum. Mas às vezes, como está o futebol hoje em dia, violento em alguns estados, chegando às vias de fato, vocês viram aí o Cássio (Goleiro do Corinthians) sendo ameaçado, teve outros jogadores sendo ameaçados de morte, a família. Isso é uma tamanha covardia. É uma ignorância do tamanho do mundo. Não podemos chegar a esse ponto. Agora xingar, ofender no jogo, que está pagando o seu ingresso, é tudo tranquilo, mas eu, Agnaldo, nunca tive nenhum problema com a torcida do Paysandu, pelo contrário, eu tenho respeito por eles e tenho respeito por mim e é vida que segue, cada um tem as suas paixões né?"

Através da profissão, Júnior Cunha, jornalista do portal Roma News, conta como vê a torcida nos estádios durante o clássico: “É algo fantástico ver os dois lados do Mangueirão lotados. Antes do jogo começar, a disputa das torcidas é para saber quem canta mais alto. Quando os times entram em campo, é impossível ouvir algo na beira do gramado. É um lado cantando mais alto que o outro e vice-versa. É algo espetacular o show das torcidas”.


Fora a questão do público nos estádios, que é mágica, tem o tratamento dado aos dois times pelo jornalismo esportivo. Todo cuidado é pouco para que não haja acusações de benefício ao rival, vindas, principalmente, dos torcedores mais fanáticos. Os jornalistas entrevistados relatam como lidam com essa situação: “Acredito que a imparcialidade seja algo inatingível no jornalismo porque a própria subjetividade e o olhar crítico do/da repórter influencia na forma como ele/ela escreve e conduz uma matéria, além da necessidade de senso crítico sobre a multiplicidade de visões que um mesmo fato possa ter. Assim, é impossível ser imparcial de maneira absoluta. Dito isto, penso que perseguimos algo mais parecido com a neutralidade dentro da rotina de uma redação ao buscar ouvir todos os lados. É sobre apurar informações com responsabilidade, se possível checar com mais de uma fonte e não atropelar etapas em busca do furo”, opina Pedro.


“Eu, particularmente, já estou acostumado com isso. E até entendo os torcedores, até porque antes de virar jornalista, eu era torcedor. E eu ficava nesse mesmo nível de chateação quando a imprensa falava algo contrário ao meu time. Mas eu lido isso com naturalidade. Não vamos agradar todo mundo. Isso é fato. É aquele velho ditado: só eu posso criticar a minha família, se outra pessoa vier falar algo contra, não vou deixar. O torcedor segue essa linha e sempre será assim. Fazemos o nosso trabalho de apurar e informar, mas sempre ciente que nem toda vez vamos agradar aos torcedores”, afirma Júnior.


Pedro, por sua vez, completa: “Com relação às críticas, no futebol é importante ter em mente que lidamos com paixões e questões que fogem à racionalidade de torcedores e dirigentes - além do fato de a maioria dos dirigentes serem, essencialmente, torcedores. Por isso as críticas sempre precisam ser recebidas de maneira serena, para que se analise o que há ali de construtivo. O exercício do jornalismo não é agradar aos clubes - muitas vezes é exatamente o oposto disso”.


Com Agnaldo, perguntamos se havia algum sentimento de rivalidade entre as equipes fora de campo, ele negou: “O sentimento de rivalidade sempre ficou dentro de campo - eu vou falar por mim - nunca chegou ao extremo de passar para fora das quatro linhas. Certo que Re-Pa, às vezes, tem jogadas mais viris, mais duras, mais ríspidas, e isso fica dentro de campo. Fora de campo eu tive o prazer de fazer grandes amigos, como Vandick, Robgol… eu tenho uma amizade, hoje, muito próxima com o Zé Augusto, sabe? São jogadores que tenho uma aproximação muito grande. Agora, entrou em campo, cada um tem que procurar defender o seu pão de cada dia. Mas extra-campo eu nunca soube de alguém poder chegar ao extremo, às vias de fato (agressão física)".


Ainda falando de bastidores, conversamos com os jornalistas a respeito da influência das informações nos bastidores dos times e até mesmo da própria torcida. Quais são os cuidados que eles tomam a respeito disso? “Os clubes fazem todo um trabalho interno, na semana do clássico, para que nenhum jogador ou treinador fale além da conta em entrevistas coletivas. Dependendo do que for dito, pode mexer positivamente ou negativamente no ambiente do clube antes do clássico. Já no pós-jogo, a influência pode ser imediata ou não. Ação imediata é mais na questão interna, tipo um dirigente ou treinador falando além da conta sobre o time dele. Já a ação não imediata, eu vejo que é mais do que o outro time fala ou faz no pós-jogo. Aí fica aquela mensagem guardada para o outro clássico da temporada”, explica Júnior, que completa: “A responsabilidade aumenta por se tratar de um clássico. Você precisa ter cuidado com o que vai ser dito ou escrito e, principalmente, na maneira como isso será feito. Clássico mexe muito com o emocional dos torcedores. Eu já vi clube 'punir' um veículo de comunicação por conta de uma manchete no pós Re-Pa. Então, é uma responsabilidade grande por se tratar de um clássico. Em relação à dica... não tem fórmula exata. Não é uma matemática onde 2 + 2 é 4, por exemplo. É mais do feeling do jornalista. Cada um tem o seu jeito particular de olhar um jogo, uma situação. Na hora do clássico, é usar esse olhar e reportar da maneira que se achar melhor. Mas sem esquecer de ser responsável ao relatar o fato”.

Arquivo pessoal - Pedro Cruz

“Acredito que o jornalismo 'factual', ou seja, noticioso e de cobertura diária dos clubes, precisa ser pautado pelo respeito às fontes e focado no interesse público, então, assim, não pode ter essa preocupação frequente de “como irá influenciar” torcida e bastidores. É uma consequência natural. Se a pergunta tiver como foco o jornalismo opinativo, como o exercido por cronistas e radialistas, entendo como relevante entender que o alcance da opinião precisa levar em conta que “do outro lado”, ou seja, nos clubes, também existem pessoas trabalhando, pessoas que buscam o melhor interesse do respectivo clube para o clube que ele torce/é colaborador. Em resumo, a cobertura diária precisa se preocupar, por exemplo, com o escalonamento da violência nos estádios, pelo respeito às instituições, mas sem deixar de entender que tem como papel noticiar e divulgar aquilo que foi apurado, ater-se ao fato e às informações. Essa responsabilidade sobre a forma como as notícias reverberam nas torcidas e no ambiente político dos clubes é compartilhada entre imprensa e, também, os próprios dirigentes”, aponta Pedro.


E por falar em influência, o Re-Pa, como nossas reportagens pretendem mostrar, influencia e muito no cotidiano e na cultura paraense, seja nas pequenas ou grandes ações. Perguntamos aos nossos entrevistados como eles enxergam essa influência: "Eu vejo o futebol profissional como uma influência positiva no quesito cultura. Porque abrange vários segmentos de amor, de paixão, de sentimento. E você pode ter uma certeza: disso tudo vai influenciar o amor, o respeito por quadros, por apoio, por incentivos, pela divulgação. Quando se fala em Pará, automaticamente, se fala em Remo e Paysandu e é uma cultura também, é uma cultura do povo, é uma cultura do Estado que mexe com todo mundo; a divulgação de Remo e Paysandu abrange as cinco regiões do nosso país, Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. É uma cultura ‘milenar’ que abrange todo o universo", afirma Agnaldo.


“Por já estar imerso em uma 'bolha' do futebol e do ambiente esportivo, dentro do meu cotidiano, o Re-Pa e a rivalidade entre Remo e Paysandu estão muito presentes. É assunto de mesa de bar, do intervalo para o almoço, de união e mesmo debate entre amigos e familiares. Piadas, provocações, comparações… vejo como algo intrínseco à rotina da maioria dos belenenses. Mesmo aqueles que nem são tão ligados aos clubes no dia a dia geralmente 'torcem' para um dos lados quando um clássico se aproxima, está ocorrendo ou no dia seguinte ao jogo. Fora isso, o Re-Pa também é um patrimônio do Pará, que vez por outra repercute nacionalmente e é muito respeitado pela imprensa esportiva de fora do Estado, além de movimentar a economia local de maneira direta e indireta”, explica Pedro.


“Essa Influência é muito absurda. Semana de clássico é uma semana atípica. E não estou usando frase clichê. De fato, é diferente. Todo mundo acorda diferente, almoça diferente, vai trabalhar ou estudar pensando no jogo. Os clubes também mudam suas rotinas. É diferente. Não sei explicar, mas é diferente a semana de clássico e isso muda muito o ambiente da cidade”, finaliza Júnior.

95 visualizações0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo