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Artesanato e empreendedorismo: novos caminhos após a vacinação

Atualizado: 8 de jul.

Por Jessica Samylle Sousa

Revisão Elaide Martins


Existe uma outra área, dentro do campo da produção artística desenvolvida em Belém, que sofreu um grande impacto negativo por conta da pandemia: o mercado de artesanato. Em escala nacional, já se constatou que o artesanato é uma atividade econômica de extrema importância para o país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse setor movimenta cerca de 50 bilhões por ano, está presente na economia de 67% dos municípios do país e sustenta 10 milhões de brasileiros. E durante a pandemia, assim como o setor da moda, essa atividade teve que se reinventar para sobreviver: e encontrou no ambiente digital uma solução para impulsionar as vendas.


De acordo com uma pesquisa feita pelo SEBRAE em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, no ano de 2021, entre todos os outros âmbitos da economia, os vendedores de artesanato foram os que mais utilizaram o Whatsapp como ferramenta de venda (92%).


Para Rodrigo Gomes, da etnia Wai Wai, artesão e estudante indígena do curso de odontologia da UFPA, a pandemia foi um período conturbado que o levou à falência enquanto empreendedor do setor, fazendo suas vendas diminuírem em 95%. Ele destaca que tem muita dificuldade para mexer com tecnologia e só no segundo semestre do ano passado conseguiu, através da ajuda de amigos, migrar suas vendas para o ambiente virtual. “Agora não, agora eu tô conseguindo vender, tem um Instagram que as meninas… o pessoal da Glenda começou a me ensinar porque eles sabem vender pelo virtual, né? Aí começaram a criar minha loja, começaram a divulgar meu produto. Então eu fiquei assim… comecei a vender também”. Entretanto, o estudante pontua que a situação ainda está difícil e que ele e sua esposa Lila Ticuna ― parceira de vendas ― ainda estão se adaptando.

“Rodrigo Nascimento e sua esposa Lila Ticuna, no evento Povos Originários da Amazônia em maio de 2021” – Foto: Via Instagram @kahxapu_waiwai

Ao ser questionado sobre o porquê de ter começado a vender artesanato, Rodrigo destaca que foi por conta da necessidade de permanecer na cidade para cursar odontologia ― graduação que requer materiais de custo muito alto. O estudante indígena contou também que os artesanatos são da etnia Wai Wai e Ticuna, grande parte é produzida na sua aldeia, pois dessa forma ele ajuda seus parentes e faz a economia do seu povo girar. Ele iniciou a comercialização no ano de 2018: “Eu não tenho mais família assim, tipo, meu pai e minha mãe que me ajudam. Então eu mesmo comecei a me virar por causa disso, porque odontologia é muito caro pra mim; porque sem material eu não estaria estudando. Então eu pensei assim: 'acho que vou voltar a vender artesanato pra me manter aqui na cidade e comprar meus materiais'. O motivo é esse: por falta de ajuda dos meus pais, porque meus pais já faleceram. Então, praticamente, eu me senti sozinho”.

“Artesanatos da etnia Wai Wai feitos de semente” – Foto: Acervo pessoal dos artesãos.

As restrições impostas pela pandemia de coronavírus resultaram no cancelamento de vários eventos, como feiras de artesanatos, o que prejudicou diretamente a principal fonte de renda desse segmento. O artesão diz que sofreu muito durante esse período e precisou usar até as economias que tinha na poupança para a realização de outros projetos, incluindo o sonho de comprar algum meio de transporte que facilitasse seu deslocamento.


Entretanto, em decorrência da queda brusca das suas vendas, ele não conseguiu alcançar esse objetivo e passou por muitas dificuldades. “A pandemia me prejudicou muito. Eu tinha juntado meu dinheirinho, tinha poupado. Tava precisando de transporte e essa pandemia acabou comigo! Eu não consegui mais vender artesanato, nada, nada, nada. Sofri muito. Só vivia da bolsa mesmo. E tive que começar a gastar o que a gente tinha estocado na poupança e foi muito difícil, muito complicado mesmo, fiquei muito triste." E complementa: “eu não consegui investir, porque eu tinha que pagar aluguel, luz, wi-fi, essas coisas que eu preciso aqui na cidade por causa do meu estudo. A bolsa que eu recebo não dá nada para mim. Não dava para cobrir todas as despesas que eu tinha e foi muito difícil pra mim e pra minha família.”


“Artesanatos de miçanga e de sementes expostos na Feira de Artesanato Indígena” – Foto: Via Facebook @Márcio Couto Henrique.

Nesse contexto de vacinação, flexibilização das medidas restritivas e retorno da circulação de pessoas, Rodrigo fala que está conseguindo se reerguer gradativamente, aprendeu muitas coisas e mudou sua técnica de vendas. Ele explica também que há cerca de cinco meses conseguiu, através da representante indígena, Jomara Tembé, atual coordenadora adjunta da Coordenadoria Antirracista, criada com o apoio da Prefeitura de Belém, um espaço no Mercado de Carnes, localizado no complexo Ver-o-Peso, para negociar os seus produtos. “Atualmente, eu consigo vender mais, até porque mudou a minha técnica de vendas também. Eu vendo em uns locais… eu tenho uma espaço para estudante lá no Mercado de Carnes, tem um novo espaço aqui no Parque do Utinga também… às vezes tem final de semana lá e na Praça Batista Campos também. Então, eu tenho uns três lugares, e onde me chamarem primeiro eu vou”. E segue destacando: “Melhorou mais agora para mim também por causa das vendas virtuais. A gente não fica só na barraca, vendemos pelo virtual também’’. Porém, o estudante pontua que “para isso, tem que ter internet no celular para poder vender, sem internet fica difícil para nós. Eu acho que alguns parentes estão assim também, não conseguem vender por causa que não têm internet”.

“Rodrigo Nascimento em exposição Povos Originários da Amazônia” – Foto: Via Instagram @kahxapu_waiwai.

Diante desse novo contexto, Rodrigo fala que sua meta é divulgar mais o seu produto através da sua loja virtual criada recentemente. “Eu vou ter que divulgar mais meu produto, mostrar mais, falar sobre a minha loja; eu tenho que criar muitas coisas. Hoje em dia eu tenho muitos planos. Tenho que criar logomarca e deixar bem organizadinho para as pessoas distantes. Minha meta é conseguir muitos clientes de fora, daqui mesmo do estado também. Essa é a minha expectativa para conseguir clientes que me ajudem. Tem muitos clientes que não sabem, não conhecem produtos indígenas, então, minha expectativa é daqui para frente me organizar, conquistar mais clientes para que eu possa vender meu produto.”


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