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Alagamentos em Belém, rotina que cansa moradores da capital

Por Andréia Santana

Revisão Cris Guimarães


Alagamento na Avenida Visconde de Souza Franco em Belém | Foto: Filipe Bispo

Vias alagadas, casas invadidas pela água e trânsito congestionado fazem parte da rotina do belenense. Quando o morador da capital sabe que vai chover, já dobra logo a barra da calça, porque sabe o que vai acontecer: alagamentos.

Esses alagamentos e inundações, acometem periodicamente a cidade. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles são ainda mais acentuados entre os meses de dezembro e maio, quando as chuvas ocorrem com maior intensidade, o popularmente conhecido inverno amazônico.

“As inundações ocorrem quando um corpo d’água, como rio ou canal, transborda. Isto pode ocorrer por conta do excesso de chuvas e do aumento do escoamento superficial por processos de maré alta em áreas costeiras. Já o alagamento é o acúmulo momentâneo de água na superfície e pode acontecer dentro da área urbanizada”, explica a Professora Milena Andrade, geóloga e professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).

Como muitas cidades amazônicas cercadas por rios, Belém é margeada pelo Rio Guamá e pela Baía do Guajará e, segundo dados de pesquisas do Museu Emílio Goeldi (MPEG), está a uma altitude média de aproximadamente 10 metros acima do nível do mar. No entanto, os alagamentos não são causados apenas pela maré alta. A ausência de medidas de prevenção na infraestrutura da cidade contribui para que os alagamentos e enchentes continuem afetando de forma negativa a cidade e a população.

“Uma área alagada se forma pelo acúmulo momentâneo de água em áreas urbanas ou rurais. No caso de áreas urbanizadas, a constante modificação do uso e cobertura da terra transformando áreas de planícies de inundação em áreas impermeabilizadas aumenta a possibilidade de se ter alagamentos, caso não haja um dimensionamento apropriado da rede de drenagem”, explica a professora.

Além das medidas de prevenção estruturais, para a professora é importante educação ambiental para a população também, já que um dos fatores que contribui para as inundações na cidade são os lixos despejados de forma irregular próximos a canais, esgotos e rios.

“Existem várias formas de se evitar desastres provenientes de inundação e alagamento, e uma delas é não ocupar áreas de risco. Mas, uma vez que essas áreas estão ocupadas, como é o caso de Belém, medidas estruturais e não-estruturais podem ser feitas. A construção de obras de drenagem, o estabelecimento de uma rede de monitoramento, a limpeza dos canais e ações de educação ambiental são exemplos que contribuem para a mitigação deste problema”, avalia.

As mais afetadas pelas enchentes e alagamentos são as pessoas que moram nas áreas da cidade onde a altitude continental é menor ou igual a 04 metros. “Também é agravante a baixa cobertura vegetal de Belém, que contribui para que a água não fique retida no solo, desaguando nas áreas mais baixas”, diz a pesquisadora.

Uma das pessoas que sofrem com esse problema é Ana Graciete Duarte, de 71 anos, moradora próxima de um canal localizado na Avenida Pedro Miranda, no bairro da Pedreira. Ela já prefere ficar em casa quando chove. “Nem saio de casa, sei que quando chover vai alagar tudo e eu não vou poder voltar pra casa. Além da água do canal subir e invadir a rua, entra também por um cano dentro da minha cozinha e alaga a casa toda, no andar de baixo todos os móveis já ficam suspensos direto”, diz.

A senhora explica que já tentou contato com a Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) para resolução do problema do cano, mas nada foi feito. E sobre o alagamento da rua dona Ana Graciete é enfática: já desistiu.

“Já tentei falar com várias pessoas na Cosanpa, dizem que é um problema que não é culpa deles, então não fazem nada. E na rua, já acontece há tanto tempo que acho que nem tentam fazer mais alguma coisa pra mudar. Todo ano é isso na época de chuva, ou não, na cidade toda tem alagamento”, disse.

Imagens de dados da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) mostram as áreas mais afetadas em Belém e o nível de risco de alagamentos nos bairros. Jurunas, Condor, Cidade Velha, Guamá, Terra Firme, Telégrafo e Barreiro são alguns dos mais afetados pelas enchentes e alagamentos, pois, além de se situarem em áreas mais baixas, são bairros à beira do Rio Guamá e da Baía do Guajará.


Áreas mais suscetíveis a alagamento em Belém | Dados: CPRM

Com os alagamentos, a população dessas áreas é afetada por perdas e danos materiais, além de estar mais sujeita a doenças de veiculação hídrica, em função do saneamento básico inadequado. “As doenças de veiculação hídricas são as que ocorrem através de contato, uso ou consumo de água imprópria. Exemplos desse tipo de doença são a amebíase, leptospirose, cólera e diarreia”, finaliza a professora Milena Andrade.


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