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Arraial do Pavulagem

Após dois anos, a programação volta à quadra junina e invade as ruas de Belém

Por Esther Pinheiro, Andréia Santana e Ana Paula Almeida

Revisão Elaide Martins

Edição Wander Lima

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Cortejo do Arrastão enche as ruas.

Cortejo durante o primeiro dia de evento, público toma a Av. Presidente Vargas | Foto: Andréia Santana

Se você é paraense, principalmente morador de Belém ou da Região Metropolitana de Belém, com certeza já ouviu falar do Arraial do Pavulagem.

Parte de um instituto que há quase uma década desenvolve ações de educação cultural na Amazônia para pessoas de todas as idades. Durante cada domingo do mês de junho, o instituto leva para as ruas de Belém os participantes de suas oficinas e a sua banda para promover o cortejo que percorre a Avenida Presidente Vargas, no centro da capital paraense, e sai arrastando centenas de moradores. 


Entretanto, por conta da pandemia de covid-19, o festejo deixou de acontecer. Com a retomada no segundo domingo de junho (12) deste ano, o cortejo foi o primeiro a acontecer desde de 2020 — visto que o Arrastão do Círio, programação que ocorre após a chegada da Romaria Fluvial em outubro, também foi suspenso. O anúncio da retomada do cortejo durante a quadra junina foi feito em abril, em um show realizado no Espaço Cultural Apoena. Flávia Souza, que acompanha o Arraial do Pavulagem como brincante desde 2016, explica que a coordenação não havia informado que o anúncio da volta do cortejo seria realizado naquele dia, mas a expectativa sobre a possibilidade já era alta.

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Batalhão da Estrela | Fotos: Esther Pinheiro

Com o primeiro contato com o Pavulagem em 2013 em um show realizado no município de Bragança, na região do nordeste paraense, na época que estudava no município, Flávia explica que ver a forma que o grupo celebra a cultura regional, das músicas até os ritmos, a encantou. "Imagina toda aquela gente dançando, cantando, balançando o chapéu de fita… Eu  fiquei encantada com tudo aquilo. Foi isso que me incentivou a futuramente entrar no projeto do arrastão", explicou.

Graduada em Turismo, ela também pontua a importância cultural que a programação tem para Belém. Além da valorização da cultura regional, o Pavulagem é algo único dentro das celebrações juninas no Brasil inteiro, quando o foco do turismo geralmente se concentra no Nordeste. Para ela, o investimento e divulgação por parte das gestões públicas poderia significar também movimentação turística na região, como no período do Círio, em que ocorre turismo religioso.

"[...] Seria um grande destino se a gestão pública trabalhasse o turismo cultural nesse período, porque em junho as pessoas procuram muito o nordeste, mas outra vez: o Pavulagem você só vê em Belém. Então por que não investir?" - Flávia Souza.

Segundo Ygor Felipe, coreógrafo do Arrastão que frequenta o Pavulagem desde 2010 e atua desde 2018 na coordenação da dança, neste ano o número de pessoas que se inscreveram nas oficinas chegou a triplicar. Além disso, Ygor também afirma que muitos inscritos já haviam participado das oficinas, mas estavam há alguns anos sem fazer parte e, agora, com esse retorno após a pandemia, a participação se tornou ainda mais intensa. Bem antes da retomada dos cortejos, a expectativa já era grande:

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Ensaio: alunos sobre pernas de pau.
“Acho que todo mundo está com esse sentimento de querer celebrar a vida, de querer estar na rua nos domingos de junho, de encontrar as pessoas queridas, de abraçar, de dançar, de trocar afeto, sabe? Então, eu acho que esse ano vai ser um ano marcante para todos, muitas lágrimas vão rolar”, apostou o coreógrafo.

Ensaio para a retomada do cortejo, em maio| Fotos: Esther Pinheiro

Juliana Bezerra Lima, percussionista do Batalhão da Estrela — nome dado à banda —, foi uma das inscritas que decidiu se aventurar pela primeira vez no cortejo após os últimos dois anos. Antes frequentadora do cortejo somente como participante, conta que a experiência de participar como integrante é única e só quem a vive consegue sentir na totalidade. "A expectativa é muito grande, viu? Nos ensaios a gente já queria tocar, cantar, sair andando por aqui. Sentindo saudade mesmo", disse.

Para Luan Ruiz, fã do grupo Arraial do Pavulagem e antigo participante dos cortejos de junho, o grupo é essencial para a fomentação da cultura amazônica e traz um misto de alegria e ansiedade. “É um evento e um trabalho muito importante, para a cidade e para a nossa cultura, falta um pouco desse tipo de coisa para a população. Então eu, particularmente, fico muito ansioso para a chegada de junho só pelos domingos de pavulagem. Já fico feliz só de imaginar os chapéus de fita e as pessoas nas ruas”, disse. Felicidade que se concretizou nas ruas da cidade, com o colorido e balanço das fitas, dos sons, dos participantes com os seus largos sorrisos que marcaram os cortejos de junho pós-pandemia.

Luan e amigos.

Luan e amigos no Arraial| Arquivo pessoal

Um pouquinho sobre o grupo

De acordo com o site oficial, o grupo musical Arraial do Pavulagem iniciou as atividades em 1986 e se dedica desde essa época à pesquisa, produção e valorização da cultura popular amazônida, usando linguagens, ritmos, elementos simbólicos, danças e a religiosidade como referência. O nome do grupo tem as palavras “Arraial”, que faz alusão ao lugar em que festas populares são realizadas, e “Pavulagem”, uma palavra criada a partir de pavão, que significa o formoso, o bonito, e que na linguagem popular é "o que gosta de aparecer".

 

Existe ainda o Instituto Arraial do Pavulagem, criado em 2003 com o objetivo de ampliar suas ações de educação cultural na região amazônica. Em quase duas década de atividades, o Instituto coloca na rua seus principais projetos: os cortejos, que acabam somando com as oficinas, palestras, seminários, pesquisas, projetos de extensão, rodas cantadas, ensaios, mostras e shows, que valorizam e propagam as manifestações artísticas da Amazônia.

Galeria:

Com fotos de Filipe Bispo e Esther Pinheiro